Projeto CAPIM : Quantos municípios ou produtores já foram beneficiados com o programa?
Artur: Hoje já estamos em 415 municípios do Brasil, distribuídos em 11 estados (SC, PR, SP, RJ, MG, MS, BA, MA, TO RO e AC). Neste ano de 2009 devem entrar Piauí e Mato Grosso, são mais de 2000 propriedades, e não tenho dúvida nenhuma de que em breve a gente vai estar no Brasil todo.
Nós não vamos atrás de ninguém, esperamos as entidades/estados/cooperativas/federações nos procurarem, pois deste modo nós iremos impor as regras do trabalho. Se acaso ninguém vier nos procurar ficaremos lá em São Carlos fazendo o trabalho que a gente sempre fez. Entretanto, está ocorrendo o contrário, a demanda está cada vez maior, estamos precisando de mais técnico no campo, porque o programa está crescendo de uma forma exponencial, e não tínhamos a menor idéia quando começamos à dez anos atrás.
Projeto CAPIM: Que níveis de produtividade já foram alcançados pelos participantes do Programa Balde Cheio e qual a média dos produtores?
Artur: O nível de produtividade mais alto é de um produtor de Jacareí, ele tem uma área de 1,5 ha, com 1,2 ha para leite (pois uma parte ele doou para ser construída uma igreja), produz entre 200 e 250 litros de leite/dia, o que dá o equivalente a uns 50.000 litros/ha/ano. Mas este produtor vai ser ultrapassado pelo Fabinho de Valência, que começou esse ano, têm 0,5ha de área total, 0,3ha de tifton irrigado, 2000m² de cana – de – açúcar, já está com 60 litros de leite, mas quer chegar nos 150 litros nessa área.
Comprando cerca de 7 a 8 vacas muito boas, tendo 6 vacas em lactação com média de 25 litros de leite/vaca/dia podemos chegar nos 150 litros/dia. Vai ter que ter uma lotação muito alta e estamos trabalhando nesse sentido, ele já entendeu que é possível, e quando nós chegarmos à nossa meta estaremos batendo perto de 100.000 litros de leite/ha/ano.
Isto é inimaginável para qualquer outro país, e é disso que eles têm medo do Brasil, porque nós temos essa condição que ninguém tem, temos um clima fantástico e forrageiras mais fantásticas ainda.
Estamos explorando o potencial dessas forrageiras, queremos saber qual é o limite delas, aonde elas vão parar. Se você me perguntar se o limite são 20 a 22 vacas por hectare, que a gente já conseguiu nos verões estendidos e com o uso da irrigação, eu digo que não, isto foi o máximo, não diria que foi o limite, acho que a gente ainda vai um pouco mais longe do que isso, porque temos como aliados produtores adeptos ao uso de tecnologias. Isso acontece porque são áreas muito pequenas e, mesmo se houver insucesso nessas tentativas, ele poderá retroceder para a situação em que estava anteriormente sem ser prejudicado, pois o produtor está dentro de um nível de produtividade muito bom.
É complicado falar de média, pois existem propriedades bem diferentes. Cerca de 60 a 65% dos produtores tem propriedades menores que 10 ha, produzindo em média de 30 a 40 litros de leite quando entram no programa. Porém, existem casos no Paraná de produtores produzindo cerca de 2 a 3 mil litros de leite. Mas quando começam, todos eles estão descapitalizados, desmotivados, desestruturados, desesperançados e você tem que fazer um trabalho muito grande de recuperação de auto - estima. Depois de feito isso o resto vem como conseqüência do trabalho.

Projeto CAPIM: Como iniciar o trabalho se o produtor que não tem como mudar sua condição por falta de dinheiro ou porque o preço do leite é baixo?
Artur: No começo foi difícil, em 1998 quando iniciamos este trabalho tínhamos poucos exemplos, hoje está muito mais fácil. Quando o produtor começa a duvidar da gente, não falamos mais nada, não ficamos brigando, nem argumentamos, só sugiro q ele que visite uma propriedade do Programa.
Hoje temos gente espalhada por todos os lugares, em área plana, em morraria, em terra roxa estruturada, em areia quartzosa, áreas diminutas, áreas grandes, tem rebanho de primeira linha, rebanho que não sabe o que é, gente que entrou no projeto sem nenhuma vaca, com 150 vacas, e com isso quando o produtor argumentar: “mas na minha região não tem grãos”, falamos para ir visitar no Rio de Janeiro, Rio Bonito, Casemiro de Abreu, Campos; “mas na minha região não tem água”, falamos para ir visitar regiões secas do Tocantins. Assim, tudo que ele nos alegar temos um exemplo para indicar uma visita. Se o produtor não for estará cortado, pois esse tipo de procedimento é combinado no início do trabalho.
Nós não podemos ficar perdendo tempo com gente que não quer se ajudar. Então a nossa estratégia são as visitas, e têm produtores que voltam emocionados, que sofrem uma revolução dentro si. Logo depois vem uma etapa complicada que é segurar o produtor. Nesta fase ele quer fazer na área inteira e tirar tudo quanto é Pronaf que existe para comprar vacas. Aí o técnico tem que frear esse cara: “vamos começar com área pequena, devagar...” E a área pequena nós montamos uma fórmula definida como: das vacas em lactação divide por 2, e destas vamos trabalhar pela lotação mínima que estamos trabalhando, que é 10 vacas por ha, diante da área é necessário analisar o nível de capital a ser investido. O produtor vai crescendo e ganhando confiança nele próprio para tirar um Pronaf, adquirir vacas, incorporar no rebanho, etc. Você o deixa tomando decisões, você não força o produtor a fazer nada, você o deixa descobrir sobre as limitações do seu rebanho, por exemplo.
O importante não são os resultados econômicos e zootécnicos, isto é secundário, o importante é recuperar a auto – estima do produtor, a dignidade, a esperança, pois, depois que ele recupera isto o resto vem como conseqüência natural do trabalho.
Projeto CAPIM: Como Participar do Programa?
Artur: Isto é simples, basta ter um técnico, um produtor, e alguém que banque as viagens da equipe do Projeto no município. A equipe do projeto são técnicos treinados por nós, são essas pessoas que vão às regiões a cada quatro meses, e eu vou como coordenador vendo o que está sendo feito e sempre estimulando o pessoal. Qualquer entidade pode bancar estes custos, em São Paulo é a CATI, no Paraná é a CONFEPAR, em Rondônia é uma casa de produtos agropecuários, etc. Basta procurar uma dessas entidades.
Com isto será selecionada uma propriedade familiar e pequena, pois, na propriedade familiar não irá ocorrer desvio de comunicação entre as partes (técnico e produtor), não há uma terceira pessoa (funcionário) que possa por tudo a perder, tem que ser propriedade pequena para servir de exemplo. Caso as coisas comecem a dar certas significa que a técnica foi bem aplicada, caso não, a técnica não foi bem aplicada, não irá ficar aquela dúvida se a terceira pessoa fez o trabalho ou não.
È isso aí, isto é o Programa BALDE CHEIO, coisa animada! Perguntaram-me se isto iria ter alguma influência na produção de leite do Brasil, eu disse: de maneira alguma, nós estamos preocupados em recuperar as pessoas, em dar oportunidade. O que não pode acontecer é que quando eu chegar ao fim de uma palestra um produtor vier me falar que vendeu a propriedade dele porque não sabia desse caminho, isto é culpa nossa dos técnicos que ser formaram nesses 30 anos e não deram conta de passar uma informação básica e simples para o produtor, não deram conta de passar que era possível na propriedade pequena dele, de 1 hectare, ter uma vida decente e bem mais digna da que ele leva hoje.